Hoje foi publicado o documento “D-VERSO – Diretrizes para um Metaverso inclusivo e acessível” que nasce do compromisso de Valore D, a primeira associação italiana de empresas dedicada à promoção da diversidade e da inclusão, em colaboração com Accenture e o Metaverse Marketing Lab do Politecnico di Milano.
O objetivo é fornecer ferramentas práticas e uma visão estratégica para orientar as empresas no uso das novas tecnologias imersivas de forma responsável, sustentável e respeitosa das diversidades.
Contexto e finalidade
Valore D, que reúne mais de 400 empresas com mais de dois milhões de empregados e um faturamento agregado superior a 500 bilhões de euros, trabalha desde 2009 para construir um mundo do trabalho livre de discriminações.
Nesta perspectiva, o metaverso representa uma nova fronteira: um espaço virtual e físico interconectado que transforma as modalidades de interação, colaboração e negócios. As tecnologias imersivas – realidade virtual, aumentada, mista e computação espacial – constituem uma ponte entre o digital e o real, abrindo oportunidades de inovação e progresso, mas também desafios éticos, sociais e culturais.
O documento destaca a necessidade de questionar quem detém a ownership dos novos espaços, como interagem os sujeitos envolvidos e quais são as implicações sobre privacidade e proteção de dados.
A missão é definir um metaverso inclusivo, acessível, respeitoso dos direitos, equitativo e sustentável.
Inovação e implicações sociais
As tecnologias imersivas permitem sobrepor conteúdos digitais ao ambiente físico ou criar mundos virtuais realistas.
Com a ajuda da inteligência artificial generativa e dos gêmeos digitais, a fronteira entre o real e o virtual se estreita. As aplicações vão desde a fabricação até a formação, das operações remotas ao design colaborativo.
No entanto, não basta olhar para os aspectos tecnológicos: é necessário abordar questões de ética, direitos e relações humanas.
O documento insiste na importância de uma tecnologia “human by design”, ou seja, projetada para melhorar a vida e o trabalho de forma natural e intuitiva.
As empresas deverão garantir experiências inclusivas, acessíveis e seguras, valorizando a diversidade de gênero, etnia, habilidades e condição socioeconômica.
Oportunidades educativas e de inclusão
O metaverso tem um forte potencial educativo. Graças às simulações imersivas, pode derrubar barreiras geográficas e econômicas, permitindo que estudantes de todo o mundo compartilhem experiências e ambientes formativos.
Não apenas transmissão de conteúdos, mas também desenvolvimento de competências transversais, colaboração e senso de pertença.
Os avatares permitem que as pessoas se representem como desejam, superando limites relacionados a gênero, identidade sexual, deficiência ou condições de saúde.
Isso abre perspectivas de inclusão novas e mais profundas. Um exemplo: um doente de SLA pode interagir sem limites motores, ou uma criança com paralisia cerebral pode encontrar motivação na fisioterapia graças a um avatar à sua imagem.
Riscos e desafios
Ao lado das oportunidades, surgem riscos concretos:
- Acessibilidade: os dispositivos para o metaverso são caros e podem excluir quem não tem recursos adequados.
- Isolamento social: a imersão prolongada pode levar a fenômenos de alienação ou dependência, até casos de “hikikomori digitais”.
- Qualidade das informações: o impacto das fake news e da desinformação em ambientes imersivos poderia ser devastador.
- Privacidade e segurança: é necessário garantir a proteção de dados, combater o cyberbullismo e a desinformação.
O papel das empresas
As empresas não serão apenas utilizadoras das tecnologias, mas também protagonistas na construção de um ecossistema digital justo e sustentável.
As diretrizes elaboradas por Valore D identificam três pilares fundamentais:
- Diversidade e inclusão – promover ambientes abertos e respeitosos.
- Sustentabilidade digital – reduzir o impacto ambiental das atividades virtuais.
- Transparência dos dados – colocar a privacidade no centro das estratégias.
A adoção de padrões abertos e interoperáveis será crucial para evitar a criação de ecossistemas fechados e garantir igualdade de oportunidades de acesso.
Responsabilidade social e legitimação
O documento introduz um framework interpretativo para avaliar como as empresas se posicionam no metaverso:
- Legitimação pragmática – iniciativas justificadas pelos benefícios tangíveis para os stakeholders.
- Legitimação moral – baseada na partilha de valores e na ideia de que “é a coisa certa a fazer”.
- Legitimação cognitiva – as empresas agem como promotoras de progresso social, independentemente do retorno econômico.
O compromisso pode ser proativo ou pragmático, mas o critério chave é a coerência com a estratégia de CSR e D&I.
Diretrizes para um metaverso inclusivo
Durante os workshops, foram identificados valores e objetivos estratégicos:
- Abertura e inclusão, sem discriminações.
- Formação dos funcionários para um uso responsável.
- Aderência aos valores empresariais.
- Segurança e respeito pela privacidade.
- Transparência sobre o uso dos dados.
- Atenção ao impacto ambiental.
- Equidade e igualdade de oportunidades.
- Responsabilidade na gestão e partilha das informações.
Pontos de reflexão
No que diz respeito ao ambiente, o metaverso pode tornar-se uma plataforma de sensibilização e educação ambiental. O caso de Tuvalu, que criou um gêmeo digital de uma ilha ameaçada pelas mudanças climáticas, é um exemplo de como o digital pode preservar cultura e soberania.
A interoperabilidade e os enfoques de código aberto são ferramentas fundamentais para garantir inclusão e conteúdos de qualidade acessíveis.
Além disso, são necessários algoritmos de verificação e educação digital para combater as fake news sem limitar a liberdade de expressão.
O documento se propõe como uma bússola para as empresas que desejam enfrentar o desafio do metaverso com consciência.
Não basta respeitar a normativa: é necessário adotar uma responsabilidade social que coloque no centro ética, inclusão e sustentabilidade.
A história da internet e das redes sociais mostrou as consequências da falta de regras: polarização, desinformação, desigualdades.
Com o metaverso, tem-se a oportunidade de aprender com os erros do passado e construir um espaço realmente humano, onde o progresso tecnológico e econômico acompanhem a justiça social, o respeito pelos direitos e a valorização das diversidades.
A mensagem final é clara: o metaverso não é apenas uma oportunidade de inovação, mas um desafio cultural e social.
As empresas, juntamente com as instituições e a sociedade civil, têm a responsabilidade de liderar esta transformação além das fronteiras tangíveis, para criar um futuro digital inclusivo, justo e sustentável.

