O colapso da plataforma cripto DSJEX está trazendo de volta ao centro das polêmicas um dos maiores problemas do setor: os esquemas Ponzi disfarçados de oportunidades de investimento inovadoras.
Segundo as reconstruções divulgadas pelo investigador on-chain ZachXBT, o sistema teria subtraído mais de 150 milhões de dólares dos usuários antes de desabar repentinamente nas últimas semanas.
Por trás do projeto atuavam duas entidades aparentemente separadas, mas estreitamente ligadas: DSJ Exchange, apresentada como uma plataforma de trading cripto, e BG Wealth Sharing, descrita como um programa de investimento de alto rendimento.
Ambas teriam construído a própria credibilidade por meio de campanhas agressivas nas redes sociais e em apps de mensagens, prometendo retornos diários entre 1,3% e 2,6%.
Summary
Autoridades internacionais em alerta, mas o golpe continuou por meses
Em primeiro lugar, é preciso dizer que números como os recém-descritos já deveriam ser suficientes como sinal de alerta. Isso porque rendimentos diários tão elevados e constantes são muito difíceis de sustentar em mercados reais, mesmo no mundo cripto.
Apesar disso, o mecanismo atraiu milhares de investidores, alimentado por bônus de indicação, prêmios ligados ao recrutamento e supostos sinais de trading compartilhados dentro de grupos privados na plataforma BonChat.
No centro da promoção aparecia também um falso CEO, Stephen Beard, figura que teria personificado o rosto público do projeto.
Segundo o que veio à tona, Beard se apresentava como especialista financeiro e promotor de estratégias de investimento avançadas, contribuindo para criar uma aparência de legitimidade em torno de toda a operação.
O golpe teria ainda explorado outro elemento muito comum nos esquemas cripto fraudulentos: o apelo à regulamentação americana.
DSJEX e BG Wealth afirmavam, de fato, estar registradas na U.S. Securities and Exchange Commission, mas as verificações das autoridades mostraram que não existia qualquer registro real.
Além disso, para agravar a situação, há o fato de que diversos reguladores internacionais já haviam alertado publicamente as pessoas antes do colapso. Especificamente, havia avisos contra DSJEX e BG Wealth por parte de autoridades de pelo menos treze jurisdições distribuídas em cinco continentes.
Entre elas figuram a Financial Conduct Authority no Reino Unido, a Australian Securities and Investments Commission e a SEC das Filipinas.
Também o Departamento de Instituições Financeiras do Estado de Washington havia advertido que a plataforma operava sem autorizações válidas. Apesar disso, o sistema teria conseguido prosseguir as atividades ainda por semanas.
Em 23 de abril, as autoridades norte-americanas haviam apreendido um dos domínios ligados à BG Wealth durante uma operação conjunta chamada “Operation Level Up”.
No entanto, segundo ZachXBT, os organizadores teriam continuado a se deslocar rapidamente entre novos sites e wallets cripto para evitar o bloqueio definitivo.
O que as fraudes cripto exploram?
O momento decisivo teria chegado poucos dias depois, quando o suposto CEO publicou um vídeo alegando que a DSJEX estava próxima da listagem pública.
Nessa fase, teria sido cobrada dos usuários uma taxa de 12% sobre os saldos das contas, apresentada como necessária para concluir procedimentos regulatórios.
Na realidade, segundo as reconstruções, os saques já haviam sido desativados e os usuários não podiam mais recuperar seus fundos. Um esquema que lembra dinâmicas já vistas em outras grandes fraudes cripto dos últimos anos.
De fato, muitas vezes os promotores, pouco antes do colapso, introduzem novas comissões ou supostos controles normativos para ganhar tempo e obter novos depósitos dos investidores já presos no sistema.
É uma estratégia que explora o medo das vítimas de perder tudo e que continua funcionando sobretudo em contextos onde a educação financeira é limitada.
O caso demonstra também o quão sofisticado se tornou o setor das fraudes cripto. Já não se trata de simples sites improvisados, mas de estruturas que utilizam branding profissional, comunidades online, influenciadores e narrativas pseudo-institucionais para construir confiança.
Tether congela milhões de dólares, mas a recuperação permanece incerta
Após a intervenção das autoridades norte-americanas, os responsáveis teriam iniciado um massivo processo de lavagem dos fundos roubados.
Segundo as análises publicadas por ZachXBT, mais de 92 milhões de dólares teriam sido transferidos através de diversas blockchains e serviços cross-chain na tentativa de tornar o rastreamento mais difícil.
As operações teriam envolvido swaps de tokens, bridges como Bridgers e Butter Network, além de conversões entre diferentes ativos digitais em redes como Solana e Tron.
Além disso, os movimentos teriam sido distribuídos entre centenas de endereços de wallet para fragmentar os fluxos e complicar as investigações.
Apesar disso, o investigador on-chain conseguiu vincular uma parte significativa das operações a depósitos efetuados em exchanges centralizadas. As informações teriam sido então compartilhadas com empresas e plataformas envolvidas, entre elas Tether, Binance e OKX.
O resultado foi o congelamento de cerca de 41,5 milhões de dólares. Desses, 38,4 milhões teriam sido bloqueados diretamente pela Tether, enquanto outros 3,1 milhões teriam sido retidos em vários serviços cripto e exchanges.
Trata-se de um valor relevante, mas ainda distante do total estimado da fraude.
O próprio ZachXBT considera, de fato, que o dano real poderia ser muito superior aos 150 milhões inicialmente identificados, considerando que o esquema estaria ativo pelo menos desde 2025 e teria envolvido milhares de transações suspeitas.

