A Copa do Mundo de 2026 não é apenas um evento esportivo de alcance global, mas também o maior banco de prova já enfrentado pelos prediction markets. Antes mesmo de o apito inicial entre México e África do Sul soar no Estadio Azteca em 11 de junho, o volume cumulativo de trading em contratos ligados ao torneio já havia se aproximado de 2 bilhões de dólares entre as plataformas Polymarket e Kalshi. Esse dado marca um novo recorde histórico, ressaltando como o futebol se tornou o principal catalisador para a expansão desses mercados.
Summary
Polymarket vs Kalshi: Estratégias e Números em Comparação
Analisando a estrutura do mercado, surgem diferenças substanciais entre os dois principais atores. A Polymarket viu seu contrato “World Cup Winner” gerar cerca de 1,595 bilhão de dólares de volume cumulativo, oferecendo 58 mercados distintos ligados à Copa do Mundo. A Kalshi, por sua vez, se destaca pela granularidade: seus 424 mercados cobrem todos os aspectos do torneio, não apenas os resultados finais, com um volume de cerca de 87,5 milhões de dólares pouco antes do início.
As projeções para todo o torneio são impressionantes. Segundo a Bookies.com e a RotoWire, o volume total dos prediction markets nos Estados Unidos superará 2,37 bilhões de dólares. A DeFiRate estima que a Kalshi sozinha poderia alcançar 1,47 bilhão, enquanto a previsão agregada indica um teto máximo de 2,5 bilhões de dólares em negociações. Só o contrato “World Cup Winner” deve chegar a 253 milhões, superando já os números do March Madness deste ano.
Um Setor em Expansão: Além das Apostas Tradicionais
O boom dos prediction markets se insere em uma tendência macro de expansão estrutural. Segundo o Pew, o volume mensal combinado da Kalshi e da Polymarket passou de menos de 5 bilhões em setembro de 2025 para cerca de 24 bilhões em abril de 2026. Para comparação, as apostas esportivas legais nos Estados Unidos ficaram em uma média de 14 bilhões mensais no ano passado. Hoje, o volume dos prediction markets superou oficialmente o das apostas esportivas tradicionais.
As trajetórias dos dois gigantes, porém, divergem. Em maio, a Kalshi registrou um recorde absoluto com 17,91 bilhões de volume, marcando o nono mês consecutivo de crescimento. A Polymarket, por sua vez, ficou em 7,08 bilhões, o dado mais baixo desde janeiro. Também o número de transações mostra a Kalshi em clara vantagem: 111 milhões contra 69 milhões da Polymarket, a maior diferença já registrada. Vale destacar também o crescimento da Polymarket US, que na primeira semana de junho dobrou seu volume para 882 milhões, com 14 dos 20 mercados mais ativos diretamente ligados à Copa do Mundo.
O Impacto nas Centralized Exchanges e o Papel do Esporte
Um dado emerge com clareza: um único evento global pode concentrar enormes quantidades de liquidez nos mesmos contratos. Hoje, o esporte representa mais de 85% do volume total da Kalshi. Segundo uma pesquisa da SEON, cerca da metade dos norte-americanos que pretendem apostar na Copa do Mundo usará prediction markets, atraídos também pela possibilidade de participar legalmente em todos os 50 estados já a partir dos 18 anos, limite inferior ao de muitas jurisdições de apostas tradicionais. Outra pesquisa revela que 19% dos adultos dos EUA agora preferem essas plataformas.
Como as Instituições Operam nos Prediction Markets
Arbitragem Cross-Venue: O Jogo dos Grandes
As instituições exploram as discrepâncias de preço entre a Polymarket, a Kalshi e os bookmakers tradicionais. Por exemplo, a probabilidade de vitória da Espanha oscila entre 16,2% na Polymarket e 16,5% na Kalshi; diferenças semelhantes são observadas para França, Portugal, Inglaterra e Argentina. Os operadores institucionais compram onde o preço é mais baixo e vendem onde é mais alto, realizando lucros quase “sem risco” graças à arbitragem de liquidez e à eficiência dos preços.
Market Making e Captura de Spread
As grandes contas se concentram na oferta de liquidez e na captura do spread entre demanda e oferta, mantendo posições geralmente neutras em relação aos resultados das partidas. A profundidade dos order books permite entrar e sair de posições relevantes sem impactos significativos nos preços.
Hedging Comercial: A Proteção das Empresas
Patrocinadores, emissoras, operadores de apostas, empresas de hospitalidade e varejistas de merchandising estão entre os agentes que utilizam contratos ligados à Copa do Mundo para cobrir riscos específicos, como o resultado de uma partida ou a classificação de uma equipe. Trata-se de um hedging microeconômico, diferente do macro hedging típico dos fundos.
Macro Hedging e Insider Trading
Os fundos hedge utilizam os prediction markets para cobrir riscos macroeconômicos por meio de contratos sobre eventos como inflação ou eleições. Estudos acadêmicos confirmam que esses instrumentos são frequentemente mantidos até o vencimento para proteger carteiras contra eventos discretos. No entanto, o crescimento do setor atraiu a atenção dos reguladores: em 2026, a CFTC sinalizou casos de insider trading, incluindo um candidato que negociou seu próprio contrato eleitoral e um usuário offshore que apostou pesadamente na destituição de Nicolás Maduro. Mesmo durante a Copa do Mundo, informações privilegiadas sobre lesões, escalações e arbitragens representam um risco concreto de abuso.
A Convergência entre Prediction Markets e CEX
Está ocorrendo um verdadeiro “aperto de mão em duas vias”: as centralized exchanges (CEXs) estão entrando nos prediction markets, enquanto estes últimos se aproximam do core business das CEX. A Coinbase, por exemplo, lançou em janeiro de 2026 uma interface de prediction market em colaboração com a Kalshi, oferecendo contratos sobre eleições, esportes e indicadores econômicos. A Robinhood, também por meio da Kalshi, viu seu segmento de prediction market se tornar a linha de produto de crescimento mais rápido, com mais de um milhão de clientes e 11 bilhões de contratos negociados em 2025. A Crypto.com, a Coinbase e a Robinhood criaram ainda uma coalizão de lobby para o setor.
Paralelamente, a Kalshi e a Polymarket anunciaram o lançamento de crypto perpetual contracts, mirando diretamente no coração das CEX. A Coinbase, a Crypto.com e a Gemini responderam desenvolvendo produtos internos de prediction market, em um contexto de queda dos volumes spot de cripto e crescimento explosivo dos prediction markets. O capital institucional está se concentrando rapidamente: a Kalshi levantou 1 bilhão a uma avaliação de 22 bilhões, com um volume de 52 bilhões em março de 2026; a Polymarket firmou uma parceria estratégica com a Intercontinental Exchange (ICE).
Regulamentação e Futuro do Setor
O debate regulatório é intenso. Enquanto a Crypto.com sustenta publicamente que os prediction markets não são jogo de azar, diversos estados dos EUA emitiram ordens de cessação, definindo-os como “apostas esportivas ilegais e não registradas”. A Kalshi se defende afirmando ser regulada pela CFTC e já iniciou uma ação judicial contra a New York State Gaming Commission. Estados como Minnesota, Novo México e Nevada estão reexaminando o quadro normativo.
A sobreposição de usuários e a lógica de aquisição de clientes tornam os prediction markets uma evolução natural rumo ao modelo de Super App para as CEX. Os contratos sobre eventos transformam dados alternativos e indicadores de sentimento em produtos negociáveis, úteis também para pesquisa interna e gestão de risco. A roadmap regulatória está se bifurcando: nos EUA aposta-se na licença CFTC/DCM, enquanto offshore prevalece a execução on-chain. As diferenças em termos de auditabilidade, restrições a insiders e acessibilidade dos usuários determinarão as estratégias futuras das plataformas.
Todos os dados apresentados estão atualizados até meados de junho de 2026, com o México vitorioso por 2–0 sobre a África do Sul na partida inaugural da Copa do Mundo.

