O mundo cripto está enfrentando uma ameaça que vai muito além dos hackers e dos ataques informáticos. Nos últimos meses, de fato, está se difundindo com força um fenômeno muito mais direto e violento: os ataques físicos contra investidores e operadores cripto.
Em resposta a essa escalada, a Binance introduziu uma nova função de segurança chamada “Withdrawal Protection”, ou seja, uma proteção temporária contra os saques.
A novidade permite que os usuários bloqueiem as transferências cripto de saída da própria conta por um período entre um e sete dias.
A configuração padrão prevê um congelamento de 48 horas, durante o qual a conta permanece ainda utilizável para trading e acesso normal, mas nenhum ativo pode ser transferido para wallets externos.
Summary
Como funciona a proteção de saques da Binance?
A medida chega em um momento particularmente delicado para todo o ecossistema cripto. Segundo diversos relatórios de segurança, em 2025 os ataques de coerção física contra detentores de criptomoedas aumentaram drasticamente.
Não se trata mais apenas de phishing ou roubos digitais, mas de verdadeiros sequestros, agressões e invasões domiciliares organizadas para obrigar as vítimas a assinar transações ou entregar acessos aos wallets.
O chamado “crypto wrench attack”, termo cada vez mais utilizado no setor, descreve justamente esse tipo de violência: em vez de tentar violar criptograficamente um wallet, os criminosos ameaçam fisicamente o proprietário.
É uma dinâmica que evidencia um dos paradoxos das finanças descentralizadas. Quanto mais aumenta o valor custodiado diretamente pelos usuários, mais cresce o risco de que estes se tornem alvos reais no mundo offline.
A Binance explicou que a nova função foi projetada justamente para criar uma janela temporal de proteção em situações de emergência.
Se um usuário for forçado a entregar o acesso à própria conta, o bloqueio dos saques impede, ainda assim, que os fundos sejam transferidos imediatamente para fora da plataforma.
A França se torna o símbolo da crise
Os números revelam uma situação cada vez mais preocupante. Segundo o tracker público gerido pelo pesquisador de segurança Jameson Lopp, desde 2014 ocorreram mais de 300 episódios documentados de sequestros e pedidos de resgate ligados às criptomoedas.
Somente em 2025 teriam sido registrados 79 ataques desse tipo, enquanto 2026 já teria superado a marca de 27 nos primeiros meses do ano.
A CertiK também sinalizou um aumento significativo dos casos verificados. Os episódios de coerção física teriam aumentado 75% ao longo de 2025, enquanto os ataques ligados diretamente a agressões violentas teriam registrado um salto de até 250%.
Entre todos os países envolvidos, a França emergiu como um dos principais epicentros do fenômeno. As autoridades francesas teriam registrado 135 episódios desde 2023, com uma aceleração evidente nos últimos dois anos.
Somente em 2025 teriam sido sinalizados 67 casos, enquanto em 2026 os números continuam crescendo rapidamente.
A situação se tornou tão séria que o judiciário francês já indiciou dezenas de pessoas no âmbito de operações contra redes organizadas especializadas em roubos cripto.
Segundo o que foi reportado, entre os investigados figuram também menores de idade envolvidos nas atividades criminosas.
O tema se tornou ainda mais sensível após a tentativa de sequestro de David Prinçey, figura ligada à Binance France. Especificamente, parece que alguns homens armados teriam tentado alcançá-lo em sua residência em Val-de-Marne no início de 2026.
Prinçey não se encontrava em casa no momento do ataque, mas o episódio contribuiu para aumentar o alerta dentro da indústria.
Esses eventos estão mudando profundamente a forma como o setor cripto percebe o conceito de segurança. Por anos o debate se concentrou quase exclusivamente na custódia digital, na proteção das seed phrases e nas vulnerabilidades de software.
Hoje, porém, emerge uma nova consciência, já que até o melhor sistema criptográfico se torna inútil se o proprietário for ameaçado fisicamente.
A nova proteção da Binance divide o setor cripto
A função introduzida pela Binance representa uma tentativa concreta de enfrentar essa nova realidade, mas não faltam críticas.
O sistema, de fato, não é baseado em um mecanismo descentralizado ou criptográfico, mas sim na infraestrutura interna da exchange. Em outras palavras, o bloqueio dos saques existe porque a Binance decide aplicá-lo às contas dos usuários.
Esse detalhe abre um debate importante dentro da comunidade cripto. Uma parte do setor considera ferramentas semelhantes uma evolução pragmática necessária, sobretudo para os usuários menos experientes e para quem utiliza plataformas centralizadas.
Outros, porém, veem essas soluções como uma confirmação de que as exchanges custodiais continuam exigindo confiança em um intermediário central, indo contra a filosofia original das criptomoedas.
Existe, além disso, um limite evidente: o bloqueio não pode impedir eventuais ordens das forças da lei e não protege os usuários que conservam ativos em wallets completamente self-custody.
Por esse motivo, alguns especialistas consideram que o problema exigirá soluções mais amplas, que incluam privacidade avançada, sistemas multi-assinatura e ferramentas de segurança pessoal cada vez mais sofisticadas.

